sexta-feira, 19 de junho de 2026

Encantamento tecnológico versus intencionalidade pedagógica

 by Laura Silva Maria


Imagem gerada por IA no Canva



O novo paradigma da educação OnLIFE (Schlemmer et al., 2023) emergente no terceiro milénio resulta de uma evolução tecnológica que tem os seus primórdios na revolução informacional no final do século XX, com consequentes redes interativas que foram propulsoras de uma sociedade em rede com conectividade a nível global (Castells, 1999).  A excessiva variedade e quantidade de informação difundida implicaria desenvolver nos indivíduos uma capacidade analítica e crítica que viabilizasse a seleção da informação e diferenciação da desinformação. Neste novo paradigma educativo privilegiam-se metodologias ativas centradas no aprendente com forte vertente colaborativa. No seguimento desta contextualização, gostaria de aprofundar a seguinte questão:

Como formar sujeitos verdadeiramente autónomos em ecossistemas digitais cada vez mais imersivos, preditivos e emocionalmente persuasivos?

 As competências essenciais para a vida ativa integrada numa sociedade em rede, como o espírito crítico, a resolução de problemas e também a autonomia, deverão ser desenvolvidas desde a educação pré-escolar com metodologias centradas no trabalho colaborativo e no envolvimento ativo das crianças. Para isso, não será necessário recorrer ao digital ou ao virtual, embora o possamos fazer. Querendo com isto dizer que, num momento em que os ecossistemas imersivos, preditivos e emocionalmente persuasivos não terão, ainda, uma implementação generalizada no nosso sistema de ensino básico, devemos, não obstante, fomentar nos alunos a aquisição de competências e da literacia que os preparem para se movimentarem nos ecossistemas digitais imersivos de forma autónoma, quando confrontados com os mesmos.

 Não defendendo uma posição tecnofóbica, mas valorizando, acima de tudo, a inovação pedagógica, não pude deixar de identificar vários paralelismos entre conceitos associados ao paradigma da educação OnLIFE e metodologias, mais ou menos tradicionais, não obrigatoriamente associadas à tecnologia e ao digital.


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 Atrevo-me a sugerir que a aprendizagem inventiva e o hibridismo das hiperinteligências (Schlemmer et al., 2023) assentam nos pressupostos da aprendizagem baseada em projetos e aprendizagem baseada em problemas (ABP). A ABP parte de um problema do mundo real no qual os aprendentes têm de se envolver ativamente de forma colaborativa e para o qual deverão procurar solução. O protagonismo ecológico-conectivo defendido por Schlemmer et al. (2023), na sua vertente específica da conectividade (sem o aspeto ecológico), poderá considerar-se alinhado com o trabalho colaborativo desenvolvido em ABP. Por outro lado, a emergência das hiperinteligências, à semelhança do verdadeiro trabalho colaborativo presente na ABP, não resultam da junção de várias inteligências, mas sim de uma interdependência, da criação de novo saber – a aprendizagem inventiva. A verdadeira essência do trabalho colaborativo é o que Schlemmer defende como

 “pensar para além de uma perspectiva adaptativa, específica de cada inteligência; naquilo que se produz no coengrendramento, num processo de cocriação, de “fazer com” e que, portanto, refere a transformação de ambos (cotransformação). E, mais ainda, num possível “terceiro” que emerja nesse/desse hibridismo, ou seja, não somente cocriação e cotransformação, mas a invenção de algo que antes não existia”. (Schlemmer et al., 2023, p. 63).

 Continuando a minha reflexão comparativa, relativamente à imersão, sendo a mesma concebida como “estado cognitivo em que se está absorto, isto é, com profundo envolvimento” (Morgado, 2022, p. 104), questiono se poderá ser considerada imersão uma atividade, na qual os alunos estão profundamente absorvidos, por exemplo um role-play, mesmo sem a mediação da tecnologia?

Indago se, à luz do entendimento tridimensional da imersão apresentado por Morgado (2022), poderá ocorrer aprendizagem por imersão pela ação ou pela narrativa em alunos absortos em uma atividade estrategicamente planeada, sem que para isso se tenha de recorrer à tecnologia – imersão pelo sistema.

 Cumpre sublinhar que, de modo algum, pretendo diminuir a relevância da educação OnLIFE e a imperatividade de todos nos mantermos atualizados quanto às tecnologias emergentes como a inteligência artificial, metaversos, RV, RA e RX.

O novo paradigma da educação OnLIFE veio acrescentar a vertente transorgânica dos atos conectivos a uma aprendizagem inventiva, sendo que neste paradigma as hiperinteligências e a aprendizagem inventiva resultam de uma ecologia conectiva de redes de humanos e entidades não humanas.

 Considero o equilíbrio a palavra-chave na abordagem destas questões. Na utilização dos metaversos deverá ser criticamente analisado o seu valor educativo real, devendo haver um planeamento criterioso com intencionalidade pedagógica na sua utilização.

Pretendo com esta problematização revalidar a ideia de que a essência é a pedagogia, sendo que a tecnologia é apenas um meio para a alcançar.

 

Os metaversos na educação


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“Vislumbra-se a possibilidade de o metaverso vir a ser a nova geração das redes sociais. Mas esse retorno veio acompanhado de desinformações, confusões conceituais e falsas promessas” (Tori, 2023, p.53).

Independentente da minha exposição no ponto anterior, não podia estar mais de acordo com Romero Tori. Os metaversos apresentam grande potencial a nível educacional, podendo fomentar aprendizagens de alto impacto, através da imersão, do envolvimento e da interatividade. As vertentes da Construção e da Ludicidade apresentadas por Tori (2023) facilitam o envolvimento dos alunos na construção ativa e modificação do ambiente, incorporando estratégias de gamificação, promovendo o desenvolvimento de competências essenciais.

Reitera-se a questão da intencionalidade pedagógica e da metodologia que se pretende aplicar e da adequabilidade destes meios ao propósito.

Os metaversos poderão ser particularmente pertinentes em simulações de situações de alto risco, onde a experiência direta é difícil, cara, perigosa ou eticamente limitada.

 No âmbito do ensino regular e alinhado com a minha perceção de professora de línguas de 3º ciclo e secundário, considero que o Artsteps e o Spatial são ambientes imersivos pertinentes, e de fácil acesso, para o desenvolvimento de trabalho colaborativo. A nível da aprendizagem das línguas estrangeiras, a abordagem da imersão linguística e cultural por meio de jogos e de role-play facilitam aprendizagens imersivas e autênticas em contextos reais (Kukulska-Hulme et al., 2024).

 Em suma, importa reforçar o que já foi amplamente referenciado. É fundamental mantermo-nos a par da evolução tecnológica. Não obstante, não deveremos perder uma visão crítica que só poderá ser assegurada pelo filtro humano. Em termos educacionais as tecnologias deverão servir sempre um propósito pedagógico. Deverá ser assegurada a formação adequada aos professores, terão de ser garantidos recursos e condições de acessibilidade, assim como asseguradas questões éticas e de privacidade.  Há ainda um longo caminho a percorrer, carecendo de investigação científica mais aprofundada.

 

Castells, M. (1999). A era da informação: Economia, sociedade e cultura: Vol. I. A sociedade em rede (2ªed.). Paz e Terra

Kukulska-Hulme, A., Wise, A. F., Coughlan, T., Biswas, G., Bossu, C., Burriss, S. K., Charitonos, K., Crossley, S. A., Enyedy, N., Ferguson, R., FitzGerald, E., Gaved, M., Herodotou, C., Hundley, M., McTamaney, C., Molvig, O., Pendergrass, E., Ramey, L., Sargent, J., ... Whitelock, D. (2024). Innovating Pedagogy 2024: Open University Innovation Report 12. The Open University. https://oro.open.ac.uk/99053/

Morgado, L. (2022). Ambientes de Aprendizagem Imersivos. Video Journal of Social and Human Research, 1(2), 102-116. https://doi.org/10.18817/ vjshr.v1i2.32

Schlemmer, E., Di Felice, M., & Accoto, C. (2023). Depois da inteligência artificialCadernos IHU Ideias, 21(348). Instituto Humanitas Unisinos.

Tori, R. (2023). Metaversos na Educação: conceitos e possibilidades. Video Journal of Social and Human Research, 2(1), 53-66. https://doi.org/10.18817/ vjshr.v2i1.25


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