Estará a Escola preparada para o uso ético da IA?
by Laura Silva Maria
05-02-26
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As instituições estão realmente preparadas para concretizar, na prática, o uso ético e equilibrado da IA?
Como assegurar que a IA amplie a autonomia e o pensamento crítico dos alunos?
As Escolas estão preparadas para educar cidadãos numa cultura digital em que o aprender com a IA não apague o aprender a pensar?
Como podem as Escolas equilibrar inovação tecnológica com equidade, ética e desenvolvimento humano?
Para dar resposta a estas questões gostaria de lançar para reflexão a seguinte ideia de Andrew Scott (s.d.)
As machines get better at being machines, humans have to get better at being more human.
Paralelamente à evolução da tecnologia e, consequentemente, da IA, registou-se uma crescente necessidade da intervenção humana. A internet e a IA não são infraestruturas meramente técnicas, sendo um espaço de interação social e humana – We are the Web. (Michael Wesch 2007)
A IA deverá ser apenas um meio, e não um fim, e o humano nunca deverá perder a sua centralidade. É essa humanidade que nos permite ser responsáveis, equilibrados, críticos, honestos e éticos.
Será que a Escola estava preparada para educar seres pensantes, responsáveis, autónomos, críticos e éticos antes da IA?
Todos os alunos refletiam sobre a sua aprendizagem de forma crítica? Os alunos não copiavam nas avaliações?
Não procuravam um caminho fácil e desonesto para obter resultados?
Não se verificavam situações de falta de ética e de plágio?
Permitam-me realçar que a tecnologia e a IA não são o cerne da questão. Não importa a utilização da IA, mas a forma como a IA é utilizada, o seu verdadeiro valor pedagógico. A humanização é o ponto essencial. Não podemos permitir-nos perder essa humanização com o desenvolvimento tecnológico e o acesso à IA.
A Escola tem vindo a ser preparada para a utilização ética da IA, com investigação, regulamentação, formação de professores, etc. É um processo em constante evolução.
Estará a Escola está preparada?
E o Ser Humano, está?
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Educar para quê, porquê e com o quê, na era da Inteligência Artificial?
by Laura Silva Maria
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A aplicação prática da Inteligência Artificial (IA) na educação deverá ter um impacto benéfico em todos os seus intervenientes: professores, aprendentes e famílias. Não obstante, deveremos estar conscientes dos potenciais riscos e efeitos negativos associados, pondo em causa a ética na educação, assim como a ética dos dados e, desta forma, comprometendo valores básicos preconizados na Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948).
Um aspeto prioritário do Plano de Ação para a Educação Digital (2021-2027), é a necessidade de haver “conteúdos de elevada qualidade, ferramentas intuitivas e plataformas seguras, respeitando a privacidade e as normas éticas.” Assim como um “bom conhecimento e compreensão das tecnologias com utilização intensiva de dados, como a IA.”(Comissão Europeia, 2020).
Como pode a utilização de ferramentas baseadas em IA generativa ampliar a aprendizagem autónoma e aberta sem reforçar desigualdades, reduzir a agência do estudante (aprendente) ou colocar em risco critérios de rigor académico?
A resposta a esta questão carece de uma contextualização mais generalizada sobre a utilização de sistemas de IA nas instituições educativas.
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Planeamento a nível da instituição sobre a adequabilidade da utilização de IA
A implementação de um sistema de IA numa instituição educativa deverá partir de uma reflexão cuidada entre os diversos intervenientes, analisando o contexto educativo e as necessidades, de forma a que seja tomada uma decisão consciente e ponderada.
Deverão ser avaliados os impactos benéficos na instituição, nos professores, nos aprendentes e no processo de ensino-aprendizagem, da mesma forma que terão de ser equacionados os perigos e os riscos inerentes. A comunicação e colaboração com outras instituições, assim como a análise de atuais sistemas de IA e de dados pode facilitar a compreensão da temática. O acompanhamento por um fornecedor de sistema de IA é essencial para ajudar a controlar o funcionamento do sistema. O perito pode facilitar a introdução gradual do sistema, permitindo uma monitorização constante e avaliação dos riscos.
Compreender o que é a IA e a relação com a ética dos dados na educação
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Para uma utilização responsável e consciente da IA, antes de mais, os seus utilizadores terão de compreender o que é a IA, como funciona e qual a sua relação com os dados.
Os dados recolhidos pelos sistemas de inteligência artificial são disponibilizados por todos nós que navegamos na Internet. Através da nossa pegada digital vamos fornecendo uma vasta quantidade de dados, que são utilizados por software “treinado” para reformular a informação obtida, sendo capaz de criar resultados de acordo com as solicitações dos humanos.
Na educação, a análise do rastreio dos dados educativos através da inteligência artificial é benéfica para a compreensão do estado da arte em determinado contexto educativo e, consequentemente, desenvolver um planeamento estratégico para dar resposta a determinadas fragilidades identificadas. Ao contexto escolar acresce a recolha de um elevado número de dados de professores, alunos e famílias, associados aos processos administrativos. Assim sendo, a instituição deverá assegurar a confidencialidade no armazenamento dos dados educativos de modo a garantir a sua utilização ética de acordo com o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD).
Informação e formação
Para garantir a transparência dos processos inerentes à implementação de sistemas de IA nas instituições escolares, todos os intervenientes deverão estar informados. A instituição deve comunicar com os pais e com os alunos, garantindo o envolvimento de toda a comunidade escolar. Os professores devem manter-se atualizados, de forma a garantir a explicabilidade do processo.
Sendo a IA um mundo muito vasto e complexo, os educadores não deverão sentir-se na obrigação de dominar esta temática na totalidade e de forma aprofundada. Deverão sim, centrar-se na forma como em contexto educacional se pode beneficiar da utilização da IA de forma crítica, segura, inclusiva e ética.
O papel do professor
O professor deverá encarar a IA como uma aliada que o poderá auxiliar em tarefas como a utilização ética da IA dos dados, atividades de ensino-aprendizagem promotoras de criatividade e espírito crítico e atividades de avaliação. A utilização de IA em tarefas administrativas e automatizadas libertará o professor das mesmas, tendo mais tempo e disponibilidade para atividades significativas com os alunos.
Diretrizes europeias sobre a utilização ética de IA na educação
Tendo presente os cuidados prévios a ter com a implementação de sistemas de IA numa escola, deverão ser tidos em conta as orientações e normativos europeus sobre a utilização ética da IA na educação. Os valores e princípios estabelecidos pelo direito internacional reforçam a necessidade de garantir a dignidade humana em todas as fases do ciclo de vida dos sistemas de IA e não apenas aquando da sua implementação na escola. Defendem a inclusão, diversidade, igualdade e bem-estar físico e mental de todos os intervenientes. Alertam para o perigo de distorções ou vieses que podem comprometer a justiça e igualdade, podendo resultar em discriminação e exclusão. Assim sendo, deverão ser tomadas medidas de mitigação de riscos através de uma monitorização e avaliação contínua dos impactos. A transparência e explicabilidade ao longo de todo o processo, garante a todos um tratamento ético e justo dos seus dados pessoais.
As instituições escolares, ao refletirem sobre as quatro considerações que servem de base à utilização ética da IA - ação humana, equidade, humanidade e escolha justificada – assim como ao analisarem as perguntas inerentes aos sete requisitos essenciais para uma IA de confiança (Comissão Europeia, 2022), asseguram uma utilização adequada da IA na sua instituição, pelos professores e pelos aprendentes. Assim sendo, estão reunidas as condições para garantir que os aprendentes utilizem ferramentas baseadas em IA generativa de forma a ampliar a aprendizagem autónoma e aberta sem reforçar desigualdades e sem reduzir a sua agência ou colocar em risco critérios de rigor académico.
Que princípios e práticas deve um código de boas práticas incluir para usar a IA generativa como instrumento de estruturação da aprendizagem em contextos de educação aberta e digital, assegurando transparência e autoria, qualidade académica, inclusão e proteção dos dados?
Os compromissos a assumir no âmbito deste código de boas práticas deverão ser direcionados para os diferentes intervenientes:
Instituição
● Garantir os pré-requisitos para a implementação do sistema, reforçando a segurança das infraestruturas;
● Monitorizar e avaliar o processo ao longo de todo o ciclo de implementação;
● Facilitar formação aos professores no âmbito do regulamento de utilização, literacia e ética da IA;
● Promover ações de informação junto das famílias e comunidade escolar, garantindo a transparência e explicabilidade do processo;
● Assegurar uma implementação ética da IA e dos dados, respeitando as normas RGPD.
Professor
● Manter-se informado e frequentar formação que o capacite para a utilização ética e responsável da IA no processo de ensino e aprendizagem;
● Utilizar recursos de forma ética e responsável respeitando as normas sobre direito de autor e direitos conexos;
● Respeitar a política de privacidade e segurança dos dados de forma a não partilhar dados sensíveis;
● Garantir a equidade nas condições de acesso dos aprendentes a ferramentas de IA.
Aluno/aprendente
● Utilizar as ferramentas de IA generativa de acordo com as indicações do professor;
● Em caso de utilização de ferramentas de IA identificar a fonte, a data e a forma como a informação foi utilizada para a realização da tarefa;
● Utilizar as ferramentas de IA de forma ética e crítica no processo de aprendizagem, respeitando as normas sobre direito de autor e direitos conexos;
● Utilizar a IA como ponto de partida ou complemento e nunca em substituição do próprio pensamento crítico e criativo;
● Ter consciência de que a IA pode conter erros, pelo que a informação deverá ser sempre confirmada com fontes fidedignas;
● Ter consciência de que os tutores virtuais são máquinas inteligentes sem sentido empático.
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Reflexões finais
Com o desenvolvimento acelerado da tecnologia, as potencialidades da inteligência artificial aumentam exponencialmente. Da mesma forma, os resultados tornam-se mais fiáveis, não só em termos de conteúdos, mas igualmente no que concerne à ética e proteção de dados, havendo requisitos obrigatórios para o desenvolvimento de sistemas de IA que asseguram a sua fiabilidade.
É imprescindível que todos os intervenientes na educação e formação (professores, formadores, diretores, investigadores), se mantenham atualizados, de forma a poderem acompanhar o ritmo da evolução e estarem aptos a capacitar os aprendentes para uma utilização autónoma, responsável, crítica e ética da inteligência artificial, sem comprometer o rigor académico.
Consulta de Chat GPT na procura de Linhas orientadoras para a utilização da inteligência artificial na Universidade Aberta, para a sua referenciação APA.
Referências APA
European Commission. (2022). Ethical guidelines for educators on using artificial intelligence. European Education Area. https://education.ec.europa.eu/focus-topics/digital-education/action-plan/ethical-guidelines-for-educators-on-using-ai
European Union. (s.d.). Ethical guidelines on the use of artificial intelligence (AI) [Vídeo]. EC Audiovisual Service. https://audiovisual.ec.europa.eu/en/video/I-232180?lg=EN&sublg=pt
European Commission. (2022). Orientações éticas para educadores sobre a utilização de inteligência artificial (IA) e de dados no ensino e na aprendizagem (Nr. de catálogo NC-07-22-649-PT-N; ISBN 978-92-76-54204-9) [PDF]. Publications Office of the European Union. https://op.europa.eu/pt/publication-detail/-/publication/d81a0d54-5348-11ed-92ed-01aa75ed71a1/language-pt
European Commission. (2020). Plano de ação para a educação digital [Página web]. European Education Area. https://education.ec.europa.eu/pt-pt/focus-topics/digital-education/plan
UNESCO. (2022). Recomendação sobre a ética da inteligência artificial [Documento normativo]. UNESCO. https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000381137_por
Universidade Aberta. (2024). Linhas orientadoras para a utilização da inteligência artificial na Universidade Aberta (Despacho nº 64/R/2024). Universidade Aberta, Lisboa.
Laura Silva Maria
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A ABERTURA DA EDUCAÇÃO PARA O BEM COMUM
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Como compreender a Educação Aberta?
Esta artigo visa refletir sobre Práticas Educacionais Abertas (PEA) no seguimento de uma atividade desenvolvida no âmbito da U.C. de Educação e Sociedade em Rede, integrada no Mestrado de Pedagogia do E-Learning, da Universidade Aberta.
Antes de mais, julgo pertinente fazer uma breve contextualização sobre o movimento internacional da Educação Aberta, que assenta fortemente na promoção do Bem Comum e na democratização do acesso à educação a nível internacional, estando alinhada com a Declaração Universal dos Direitos Humanos (Artigo 26). O movimento da Educação Aberta facilita o acesso aberto, flexível e gratuito à educação a nível internacional. Defende uma metodologia de ensino colaborativo centrado no aprendente, promovendo a inclusão e a igualdade de oportunidades. O trabalho colaborativo e partilhado no âmbito da Educação Aberta permite enriquecer o conhecimento global, fomentando a inteligência coletiva defendida por Pierre Lévy (2000, p.17). Recursos Educacionais Abertos (REA) suportam este movimento através de “materiais de ensino, aprendizagem e investigação, em qualquer suporte ou mídia, digital ou não, que estão sob domínio público e são disponibilizados com licença aberta que permite o acesso, uso, adaptação e redistribuição gratuita por terceiros, sem restrição ou com poucas restrições” (UNESCO, 2002). Tendo presente a Declaração da Cidade do Cabo para a Educação Aberta (2007) no que concerne à “crença de que todos devem ter a liberdade de usar, personalizar, melhorar e redistribuir os recursos educacionais, sem restrições”, David Wiley (2014) veio dar resposta a esta necessidade na sua publicação The Access to Compromise and the 5th R, onde são descritos os 5Rs de abertura dos REA – Retain, Reuse, Revise, Remix, Redistribute.
O que são Práticas Educacionais Abertas (PEA)?
Ulf-Daniel Ehlers define as PEA da seguinte forma:
OEP are defined as practices which support the (re)use and production of OER through institutional policies, promote innovative pedagogical models, and respect and empower learners as co-producers on their lifelong learning path. (Ehlers, 2011:4)
Assim sendo, a utilização dos Recursos Educacionais Abertos deverá estar sempre associada a uma metodologia ativa centrada no aprendente, através da qual ele constrói o seu conhecimento de forma colaborativa. O trabalho colaborativo que suporta as metodologias baseadas em projetos ou problemas, é essencial para o desenvolvimento do pensamento de ordem superior defendido por Matthew Lipman (2003). A verdadeira colaboração envolve o aprendente ativamente na resolução de situações através da comunicação, criatividade e espírito crítico, de forma a alcançar um produto final comum. A inter-dependência para alcançar um produto final e, consequentemente, o sucesso, responsabiliza todos os aprendentes no cumprimento da tarefa, desta forma, adquirindo não apenas conteúdos, mas também competências. Os desafios inerentes a estas metodologias fomentam a resiliência, capacidade de gestão de conflitos e adaptabilidade. É o envolvimento em situações reais e a responsabilização dos aprendentes no seu processo de aquisição de conhecimentos que promove aprendizagens significativas e duradouras.
Qual o papel do professor?
O professor “aberto” é aquele que sustenta uma aprendizagem “aberta”, dando voz aos alunos, envolvendo-os no processo de aprendizagem e permitindo-se também aprender com eles. Este professor deverá desenvolver um trabalho interdisiciplinar e colaborativo com os colegas, alinhado com o ideal do whole-school approach, de forma a envolver toda a comunidade escolar e rentabilizar o trabalho dos professores e os projetos em curso na escola (ex. DAC, projetos eTwinning, projetos Erasmus+).
Na mesma linha, Ehlers salientou que:
OEP address the whole OER governance community: policy makers, managers/administrators of organisations, educational professionals and learners. (Ehlers, 2011:4).
Práticas Educacionais Abertas nos Projetos Europeus e Internacionalização das Escolas
Fonte: Comissão Europeia
A Educação Aberta é um modelo que promove o acesso a aprendentes de diferentes áreas geográficas, a nível nacional e internacional, fomentando a empatia, o respeito pelo outro e a inclusão. Desta forma, contribui para a internacionalização e abertura para um espaço europeu das instituições de ensino. Na mesma linha, o desenvolvimento de projetos europeus reforça a dimensão internacional da escola, aprofundando a perceção intercultural dos alunos e professores, promovendo os valores democráticos defendidos pela União Europeia.
Indo ao encontro da contextualização anterior e de forma a apresentar exemplos práticos da minha experiência professional, selecionei algumas ideias de Práticas Educacionais Abertas, com recurso às plataformas europeias que se seguem, apresentando um impacto documentado na disseminação do conhecimento e permitindo a (re)utilização de recursos educacionais abertos que cumpram o critério 5R de David Wiley.
Erasmus+ Project Results
https://erasmus-plus.ec.europa.eu/projects
Os resultados dos Projetos de Parcerias de Cooperação devem ser “reutilizáveis, transferíveis, redimensionáveis e ter uma dimensão transdisciplinar.” (Agência Nacional Erasmus+ s.d.). São recursos desenvolvidos colaborativamente por várias instituições em diferentes países e deverão ser disseminados e implementados em larga escala por diversos meios. O repositório de excelência para os resultados dos projetos Erasmus+ é a Plataforma de Resultados Erasmus+, da Comissão Europeia.
A aprovação de projetos Erasmus+ (Parcerias de Cooperação) está sujeita a licença Open Access dos recursos que terão de ser disponibilizados na Plataforma de Resultados Erasmus+ pelos beneficiários.
Exemplo prático
Projeto Erasmus + Ka 201 DemEUcracy for ALL
Fonte: Projeto Erasmus + Ka 201 DemEUcracy for ALL
https://erasmus-plus.ec.europa.eu/projects/search/details/2020-1-PT01-KA201-078358
Os Projetos de Parcerias de Pequena Dimensão, mais direcionados para o trabalho prático com os alunos, poderão ser desenvolvidos associados a projetos eTwinning, sendo a partilha dos recurso criados feita no TwinSpace do projeto.
Projetos eTwinning
O eTwinning, através de projetos colaborativos desenvolvidos entre professores e alunos de diferentes países, são uma excelente forma de implementar a metodologia alinhada com os conceitos de REA e PEA, sendo que o “eTwinning pretende promover, em professores e alunos, a consciência do modelo europeu de sociedade multilingue e multicultural” (eTwinning PT s.d.).
Os projetos eTwinning promovem um trabalho interdisciplinar e inclusivo, permitem uma abordagem flexível do currículo, indo ao encontro das necessidades individuais dos alunos. Através da colaboração em torno da resolução de problemas e da criação de produtos finais comuns, o conhecimento é co-construído e facilitado por meio de uma interação e reflexão mútua, referido por Ehlers relativamente à mudança de paradigma que temos vindo a presenciar no ensino:
knowledge is co-created and facilitated through mutual interaction and reflection (Ehlers, 2011:4).
O acesso ao conhecimento já não é suficiente. “A chave é a possibilidade de participar efetivamente da produção de conhecimento, tanto para resolução de problemas locais, quanto para ampliação do campo cognitivo da humanidade em larga escala”. (Nobre & Mallmann, 2016, p. 153)
Pierre Lévy (2000), ao referir os três princípios da cibercultura, já antevia a relevância da interligação, das comunidades virtuais e da inteligência coletiva no ensino, bem presente na Educação Aberta e nos projetos Erasmus+ e eTwinning.
Do mesmo modo, Ehlers reforça esta ideia de que “estamos perante PEA quando há criação de recursos centrados no aluno, quando os alunos se envolvem na criação de conteúdos, quando professores se afastam de um ensino centrado no professor, quando os processos de aprendizagem são processos produtivos e os resultados são dignos de serem partilhados e reutilizados, os recursos melhoram o processo de aprendizagem” (Ehlers, 5).
Exemplo Prático
Livro digital com projetos eTwinning reconhecidos com Prémio Nacional
Fonte: https://www.etwinning.pt/site/
https://etwinning.pt/site/premios
European School Education Platform (ESEP)
https://school-education.ec.europa.eu/en
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Para além de espaço virtual de trabalho interativo e seguro, no qual o eTwinning está inserido, a ESEP é um ponto de encontro para a comunidade educativa europeia.
Partilha diversas publicações, recursos e iniciativas de formação (cursos, MOOCs, webinars, podcasts, etc.) do interesse de todos os intervenientes na área da educação. Promove cursos de formação Erasmus+, assim como facilita a procura de parceiros internacionais para o desenvolvimento de projetos.
Os recursos são disponibilizados com licenças abertas e permitem a sua utilização livre ou adaptação, sendo proibida a sua utilização com fins comerciais.
Exemplos Práticos
Planos de aula
Fonte: European School Education Platform
https://school-education.ec.europa.eu/en/teach/lesson-plans
Kits de projetos
Fonte: European School Education Platform
https://school-education.ec.europa.eu/en/teach/project-kits
Reflexão Final
Sendo o ponto de partida para esta reflexão o OpenEdu Framework da Comissão Europeia, julgo que uma atenção mais cuidada às 10 dimensões da educação aberta será mais do que merecida.
Fonte: Comissão Europeia – OpenEdu Framework
Visualizo o esquema Open Edu Framework como uma representação da experiência partilhada neste artigo. Todas as dimensões apresentadas no esquema estão relacionadas entre si, sendo a colaboração (collaboration) uma das dimensões fundamentais para para a aquisição de conteúdos (content) através de metodologias abertas e centradas no aluno (pedagogy). O acesso (access) a recursos abertos está dependente de uma investigação (research) cuidada com reconhecido valor científico e pedagógico (recognition).
De forma a garantir a implementação das dimensões centrais, deverá definir-se uma estratégia (strategy), com uma forte liderança (leadership), garantindo o acesso a tecnologias (technology) e conteúdos de qualidade (quality). (European Commission, 2017.)
Consequentemente, através da Educação Aberta e de Práticas Educacionais Abertas, as instituições escolares estarão a educar cidadãos informados, colaborativos, comunicativos, criativos, com espírito crítico e capazes de resolver desafios múltiplos e imprevistos, de forma a “preparar os alunos, que serão jovens e adultos em 2030, para empregos ainda não criados, para tecnologias ainda não inventadas, para a resolução de problemas que ainda se desconhecem" (Dec-lei nº55/2018).
Referências APA
Agência Nacional Erasmus+ (s.d.) https://erasmus-plus.ec.europa.eu/projects
Decreto-Lei n.º 55/2018, de 6 de julho. Diário da República nº 129/2018, Série I de 2018-07-06. https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/decreto-lei/55-2018-115652962
Ehlers, U.-D. (2025). Extending the territory: From open educational resources to open educational practices. Journal of open, flexible and distance learning, 15(2), 1–10. https://doi.org/10.61468/jofdl.v15i2.64
eTwinning PT (s.d.) https://etwinning.pt/site/etwinning
European Commission. (2017). Opening up Education: The OpenEdu Framework [Video]. YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=KhFeaFD5PJw
European School Education Platform (ESEP) (s.d.) https://school-education.ec.europa.eu/en/etwinning
Lévy, P. (2000). Cibercultura Instituto Piaget
Lipman, M. (2003). Thinking in education (2nd ed.). Cambridge University Press.
Nobre, A., & Mallmann, E., M. (2016), Recursos educacionais abertos: Transposição didática para transformação e coautoria de conhecimento educacional em rede, CIDTFF - Indagatio Didactica - Universidade de Aveiro http://hdl.handle.net/10400.2/6887
Open Society Institute and Shuttleworth Foundation. (2008, January 22). Cape Town open education declaration: Unlocking the promise of open educational resources. https://www.capetowndeclaration.org/read/brazilian-portuguese-translation/
Plataforma de Resultados Erasmus+ (s.d.) https://erasmus-plus.ec.europa.eu/projects
UNESCO. (2012, June 22). 2012 Paris OER declaration. UNESCO.
https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000246687_por
United Nations. General Assembly. (1948, December 10). Universal declaration of human rights (217 A (III)). United Nations.
Wiley, D. (2009). Open Education [Video]. Keynote in the 2009 Penn state symposium for teaching and learning. https://www.youtube.com/watch?v=VcRctjvIeyQ&t=9s
Wiley, D. (2014, September 24). The access compromise and the 5th R. Improving Learning.https://opencontent.org/blog/archives/3221
Laura Silva Maria
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Reticularização e Datificação dos Processos Educativos
A sociedade global interconectada
que experienciamos atualmente resulta de diversos momentos de mudança ao longo
dos tempos, tendo o desenvolvimento exponencial da tecnologia um impacto
significativo na reticularização e datificação dos processos educativos, assim
como em diversas áreas como a economia, a política, a cultura, o mercado
laboral, as relações humanas e a sociedade em geral.
A visualização do vídeo The
Machine is Us/ing Us, de Michael Wesch (2007) poderá metaforicamente comparar-se
à passagem por uma porta de entrada para este novo mundo em que vivemos no séc.
XXI. Permite-nos, não só visualizar, mas percecionar o frenesim característico
da evolução tecnológica. A ausência de comunicação verbal torna toda a
experiência mais intensa como se entrassemos num carrocel de alta velocidade ou
num remoinho ao qual não conseguimos escapar.
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Este vídeo prepara-nos
para a entrada no mundo frenético da 4ª Revolução Industrial, igualmente
retratada nas restantes quatro produções, e a consequente mudança de paradigma
educacional ao alcançarmos o modelo de Educação 4.0. Todos estes recursos estudados
no âmbito desta ativitade da U.C. de Educação e Sociedade em Rede - The
Machine is Us/ing Us, de Michael Wesch (2007), Digital Transformation of
Teaching and Learning, Dr. Aras Bozkurt (2021), Education 4.0 |
Transforming the future of education, Jisc (2019), The limits of
learning, DW Documentary, (2021), AI and the future of education,
Plastico Film (2023) – apresentam uma heterogeneidade estética que, não
obstante, retrata diversas facetas de uma realidade convergente.
A Hiperconectividade
de um Mundo em Mudança
A “facilidade de ligação entre tudo” referida por Teixeira et al. (2019),
como resultado da transformação tecnológica e da evolução da Web,
impulsionou a passagem do estático ao dinâmico, do refletido ao imediato, de
repositório a espaço colaborativo. A fluidez e dinamismo da informação leva-nos
à necessidade de repensar tudo à nossa volta em termos sociais, éticos,
educacionais, políticos, existenciais e pessoais.
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O link passa a representar o fio que sustenta a rede que nos envolve num espaço comum de convivência e de partilha, propulsor de um pensamento coletivo. (Lévy, 2000). O mundo em que vivemos mudou e continua em constante mutação. Lévy (2000, p.167) previu que “Pela primeira vez na história da humanidade, a maior parte das competências adquiridas por uma pessoa no início do seu percurso profissional serão obsoletas no fim da sua carreira.” Uma pessoa terá múltiplos empregos e terá de reaprender ao longo da vida. Neste sentido, as instituições educativas terão de estar capacitadas para munir os aprendentes de competências essenciais para os preparar para o mercado de trabalho global do séc. XXI. A aquisição das competências digitais e de literacia da inteligência artificial deverá ser iniciada em idade precoce de forma a preparar as crianças para uma utilização crítica e ética da tecnologia e da IA. A inclusão de Literacia Computacional nos currículos é imperativa na promoção da aquisição de competências digitais, assim como transversais como a comunicação, colaboração, criatividade, pensamento crítico, responsabilidade e adaptabilidade, preparando os jovens para a vida, tornando-os cidadãos responsáveis, empreendedores e "criadores de empregos".
Educação 4.0
Estará a inevitável mudança de paradigma educacional em convergência com
a realidade das escolas e dos professores?
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Na 4ª Revolução Industrial o aprendente não é mais mero utilizador de
tecnologia, mas passa a ser criador ativo, tendo o professor um papel de mentor
e facilitador da aprendizagem. A tecnologia torna o ensino mais inclusivo e
acessível às necessidades individuais dos aprendentes. Contudo, “a
transformação digital já chegou, mas não está, ainda, distribuída uniformemente”
(Grajek, 2019). Perceciona-se, ainda, por parte da classe docente, alguma resistência
e dificuldade em acompanhar a efervescência instrínseca à evolução, sendo
necessário desenvolver competências que lhes permitam evoluir e adaptarem-se à
mudança. Segundo Alvin Toffler, “Os iliterados do séc. XXI não serão aqueles
que não sabem ler e escrever, mas aqueles que não sabem aprender, desaprender e
reaprender.”
O papel da Inteligência
Artificial (IA) na relação máquina – humano
A IA tem vindo a ocupar um espaço cada vez mais significativo nas várias
vertentes do dia-a-dia dos indivíduos. No que concerne à educação, a IA torna o
processo de ensino-aprendizagem mais gratificante e envolvente para professores
a aprendentes. A IA permite um ensino mais inclusivo e personalizado, indo ao
encontro de necessidades específicas dos alunos. Mas qual será o papel da IA no
futuro da educação? Irão os professores ser substituídos por robôs?
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Paralelamente às mudanças que proporcionaram a evolução da Web 1.0
para a Web 2.0, registou-se uma crescente necessidade da intervenção
humana na utilização da tecnologia. No universo do espaço colaborativo e do pensamento
coletivo sustentados pela evolução da Web, a interatividade e conexão
global entre humanos é imprescindível. A internet não é mais uma infraestrutura
meramente técnica, passando a ser um espaço de interação social e humana – We
are the Web.(Michael Wesch 2007)
A relação entre a máquina e o humano deverá ser entendida como uma win-win-situation,
verificando-se um interdependência e uma influência mútua. A tecnologia deverá ser
apenas um meio e não um fim e o humano nunca deverá perder a sua centralidade. A
educação do futuro é aquela em que se promove aprendizagem, desenvolvimento
profissional e pessoal, nunca permitindo que a tecnologia nos tire a nossa
humanidade.
Novas formas de aprender
A Educação a Distância (EaD) assenta num modelo profundamente organizado
e estruturado com metodologia e regras bem definidas. Registou-se uma evolução
significativa desde o modelo de ensino à distância industrial, no qual não se
privilegiava a interação estudante-estudante, nem estudante-professor, passando
a vigorar um modelo de EaD centrado no estudante, com uma forte vertente cooperativa.
O trabalho colaborativo entre os vários estudantes promove não só a aquisição
de conteúdos (o quê), mas também o desenvolvimento de competências essenciais
(o como), nomeadamente o espírito crítico e criativo e a responsabilização e
capacidade de resolução de problemas.
Este modelo é considerado como uma mais-valia por permitir uma abordagem flexível
e inclusiva, dando acesso a estudantes de diferentes áreas geográficas a nível
nacional e internacional. Contudo, a sua utilização generalizada e potencialmente
menos adequada durante períodos de crise como o da pandemia Covid 19, poderá ter
impactos negativos no bem-estar e saúde mental dos jovens, causando exaustão,
solidão e depressão. Estes sintomas poderão ser acentuados por excesso de
trabalho, necessidade de cumprimento de prazos, assim como falta de condições
materiais e habitacionais e contextos familiares desfavorecidos, originando
desigualdades nas oportunidades de aprendizagem.
Nestes contextos de crise, o EaD poderá facilmente deixar de praticar uma
metodologia aberta, são sendo mais do que uma forma de ensino tradicional, praticado
online e à distância. Esta prática em nada se alinha com a metodologia
aberta inerente ao EaD.
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Using the new
technologies to pursue old teaching methods – generally, the content-centered,
transmission of knowledge approach that has been the paradigm in traditional
universities – does not bring substantial gains. There need to be changes in
the pedagogy, in course design, in the role and action of teachers, or in the
preparation of resources, to name the most relevant (Mota, 2009).
Conclusão
Finalizando este comentário–síntese da análise das várias produções
audiovisuais no âmbito da atividade 4 da U.C. de Educação e Sociedade em Rede,
cumpre-me concluir que a evolução da sociedade em rede tem um impacto
significativo não apenas na educação, mas também na vida em sociedade na suas
várias vertentes: económica, política,
cultural, assim como a nível das relações humanas e laborais.
Referências (APA)
Bates, A. W. (2017). Educar na era
digital: Design, ensino e aprendizagem. Artesanato Educacional.
Bozkurt, A. (2021). Digital
Transformation of Teaching and Learning
DW Documentary (2021). The limits of
learning,
Grajek, S., & EDUCAUSE IT Issues
Panel. (2020). How colleges and universities are driving to digital
transformation today. EDUCAUSE Review.
Jisc. (2019). Education 4.0:
Transforming the future of education [Vídeo].
Lévy, Pierre (2000). Cibercultura
Instituto Piaget
Plastico Film. (2023). AI and the
future of education [Vídeo].
Teixeira, A., Bates, T., & Mota,
J. (2019). What future(s) for distance education universities? Towards an open
network-based approach. RIED. Revista Iberoamericana de Educación a Distancia,
22(1), 107–126. https://doi.org/10.5944/ried.22.1.22288
Wesch, M. (2007). The machine is
us/ing us [Vídeo].
Laura Silva Maria
Autenticidade
e Transparência na Rede
A solidão da popularidade no digital e o síndroma de FOMO – o medo de ficar de fora
O tema da autenticidade e transparência na rede no âmbito da UC Educação e Sociedade em Rede permitiu-me refletir de forma mais ponderada sobre as consequências do desenvolvimento tecnológico, à luz dos pensadores Jean Baudrillard e Paul Virilio.
Ambos os autores apresentam ideias convergentes no que respeita à perceção da realidade e da autenticidade em consequência do desenvolvimento tecnológico, pós-industrial. Contudo, apresentam divergências na forma como se perde a noção de realidade e autenticidade.
Para Baudrillard, no mundo hiper-real derivado da transformação tecnológica, a autenticidade e a transparência deixam de ter significado. A autenticidade desaparece quando as representações do real - simulacros - se tornam mais reais do que o real. É assim que, segundo Baudrillard, o indivíduo com as suas múltiplas identidades perde a noção da verdadeira identidade.
Virilio, por outro lado, defende que o que nos faz perder a perceção da autenticidade é a velocidade perigosa – dromologia – com que excessiva quantidade e variedade de informação é difundida. Os “acidentes” decorrentes da velocidade inerente ao progresso tecnológico são a contrapartida negativa. Quanto mais informação, mais desinformação, deep fake e outras simulações criadas por IA. Quanto mais progresso, maior a perda de autenticidade e da orientação nas relações que mantemos com o que nos rodeia.
FOMO – Fear OF Missing Out – um síndroma do século XXI
Vivemos rodeados de estímulos excessivos que nos chegam através de diversos meios a uma velocidade que dificilmente conseguimos acompanhar. Sentimos nos jovens, e também nos menos jovens, a ansiedade associada ao síndroma FOMO – o medo de não conseguir acompanhar e assim, ficar de fora, ser excluído. Quanto mais estes indivíduos acompanham as redes sociais, mais medo têm de perder alguma informação, tornando-se um vício difícil de contornar, perdendo-se neste turbilhão. Os indivíduos solitários e com baixa auto-estima parecem procurar conforto e aceitação nas redes sociais, estando mais vulneráveis ao FOMO, que, consequentemente, acentua a probabilidade de ansiedade e depressão. Vive-se o mundo das redes sociais como um mundo de faz de conta, onde a aparência ilude a autenticidade e a transparência se desvanece, porque nada é o que parece.
O desenvolvimento tecnológico e as relações humanas
O desenvolvimento tecnológico influenciou fortemente as relações humanas. Na superficialidade dos relacionamento humanos nas redes sociais, a reflexão crítica e ponderada foi substituida pelo Já-instantâneo e irrefletido, referido por Virilio. A falta de reflexão profunda originada pela pressa e a necessidade do imediato não permitem distinguir o que é autêntico e transparente do que é informação falsa e manipulada.
O ser humano tem de parar, tem de desligar, tem de se permitir tempo para o pensamento individual profundo, essencial para refletir de forma crítica e autêntica. Só assim conseguiremos compreender quem somos e quem queremos ser, mantendo a autenticidade e a transparência e escapando à solidão da popularidade nas redes sociais.
Imagem criada por IA em Canva
Cibercultura aos olhos de Pierre Lévy
Pierre Lévy, filósofo e sociólogo francês, visionário, há
mais de 30 anos anteviu os impactos que a Internet teria no futuro da humanidade.
Desenvolveu vários conceitos, sendo um dos mais importantes o de cibercultura.
Uma breve reflexão sobre o contexto histórico-social por trás deste conceito,
assim como a interligação a outras conceções referidas por Pierre Levy na sua
obra Cibercultura irão facilitar a compreensão da noção de cibercultura.
Cibercultura
e o dilúvio do desenvolvimento tecnológico
Albert Einstein referiu que no séc. XX, para além da bomba
atómica, explodiram duas bombas, a bomba demográfica e a bomba tecnológica, denominada
por Roy Ascott como o segundo dilúvio. O paralelismo apresentado entre a
tecnologia e o dilúvio prende-se com o crescimento exponencial e descontrolado
da tecnologia, semelhante a uma inundação, neste caso um fluxo de informação desordenada
e caótica, com as suas inúmeras fontes, ligadas em tempo real em todo o mundo.
Este dilúvio anárquico, com um sentido global cada vez mais
ilegível, paradoxalmente, abriu caminho para a procura de soluções práticas na
resolução do caos instalado. Estamos perante um dilúvio que não terá fim e no
qual teremos de conseguir flutuar. Será que Noé saberá fazer a melhor opção
para a sua arca? Ou, será que no meio deste dilúvio infinito haverá várias
arcas com vários Noés a fazerem diferentes escolhas? Todos nós somos um Noé,
com as nossas opções individuais, sendo que várias inteligências individuais
resultam em inteligência coletiva. Pierre Lévy (2000, p.17) defende que “Os
instrumentos que construímos dão-nos poderes mas, colectivamente responsáveis,
temos a escolha nas nossas mãos.”
Como cidadãos responsáveis devemos procurar selecionar,
através de uma filtragem consciente, a
informação mais adequada, éticamente correta e fidedigna.
Este dilúvio exponencial de desenvolvimento tecnológico está
alinhado com o desenvolvimento demográfico do séc. XX, criando as condições
para os três princípios da cibercultura - interligação, comunidades
virtuais, inteligência coletiva. Dando voz a um movimento social, um grupo
humano busca o ideal de inteligência coletiva através de uma comunidade virtual,
inserida no ciberespaço.
A inteligência coletiva, um dos principais conceitos
associados à cibercultura, vem dar resposta ao caos do dilúvio
tecnológico. Através das memórias comuns e da contextualização é atribuída uma
significação às mudanças tecnológicas.
O ciberespaço, embora condicione e prepare o terreno para
o desenvolvimento da inteligência coletiva, não o determina. A inteligência coletiva resulta de uma
interação flexível e abrangente, a memória comum de um grupo humano, que
representa o verdadeiro virtual. O verdadeiro mundo virtual é o da
significação atribuída, uma vez que não há ligação a um tempo ou lugar
definidos.
Este dinamismo coletivo de interligações transversais e a comunicação
interativa em tempo real originaram uma nova universalidade inerente à
cibercultura. “A cibercultura exprime a ascenção de um novo universal”(Lévy, 2000,
p.15).
Contrariamente ao universal totalizante que não está sujeito
à significação do contexto, o novo universal sem totalidade, da humanidade, estabelece-se
pela contextualização semântica generalizada do coletivo inteligente humano.
“A cibercultura, correspondente à mundialização concreta das
sociedades, que inventa um universal sem totalidade.” (Lévy, 2000, p.274)
Lévy (2000, p.17) define a cibercultura como “o conjunto das
técnicas (materiais e intelectuais), as práticas, as atitudes, as maneiras de
pensar e os valores que se desenvolvem conjuntamente com o crescimento do
ciberespaço.” Considerando os conceitos acima apresentados, iria mais além ao
acrescentar que a cibercultura é um fenómeno vivo em constante atualização no
ciberespaço, que em consequência do desenvolvimento tecnológico influenciou significativamente
a humanidade em termos civilizacionais, sociais, culturais, económicos, artísticos
e educacionais.
Exemplos
de cibercultura
A Intranet
Atualmente largamente utilizada por empresas e entidade públicas,
foi há anos reconhecida por Lévy como uma forma de facilitar a transparência
entre as organizações que a utilizam. Permite a correspondência, colaboração e
partilha de documentos internamente, facilitando a organização interna das empresas.
Não obstante, está inserida no ciberespaço global.
O Blogue
A nível mais atual, o blogue é utilizado como ferramenta de trabalho e avaliação colaborativa no âmbito do Modelo Pedagógico Virtual da Universidade Aberta. O blogue como Recurso Educacional Aberto é um canalizador de inteligência coletiva de qualidade. O facto de o autor partilhar o seu trabalho de forma aberta e acessível a toda a gente, irá inevitavelmente contribuir para uma filtragem do conteúdo a ser partilhado. A interação transversal facilitada pelo blogue, permite uma apendizagem em rede, de forma interativa e colaborativa.
As Árvores do Conhecimento
Esta criação de Pierre Lévy e Michel Authier é um perfeito
exemplo de inteligência coletiva e cibercultura. Este software favorece o
desenvolvimento pessoal contínuo e flexível dos indivíduos e valoriza as suas
competências, qualificações e habilidades. Torna-os visíveis à comunidade onde
estão inseridos, de forma que a comunidade, como um todo, possa beneficiar do
contributo de cada um.
PIERRE
LÉVY, o visionário
Ao ler a obra Cibercultura de Pierre Lévy, primeiramente publicada em 1997, compreendemos como o autor tinha consciência do impacto profundo que a Internet iria ter na humanidade. A sua reflexão sobre o futuro dos sistemas educativos e de formação foca alguns aspetos que estão perfeitamente atualizadas no séc XXI.
Lévy (2000, p.167) prevê que “Pela primeira vez na história
da humanidade, a maior parte das competências adquiridas por uma pessoa no
início do seu percurso profissional serão obsoletas no fim da sua carreira.”
Esta sua previsão está alinhada com as políticas educativas
europeias e nacionais atuais, conforme descrito no Decreto-Lei n.º 55/2018, de
6 de julho “a sociedade enfrenta atualmente novos desafios, decorrentes de uma
globalização e desenvolvimento tecnológico em aceleração, tendo a escola de
preparar os alunos, que serão jovens e adultos em 2030, para empregos ainda não
criados, para tecnologias ainda não inventadas, para a resolução de problemas
que ainda se desconhecem”.
Relativamente ao ensino superior, Pierre Lévy afirma a
necessidade de recorrer a novas formas de ensino-aprendizagem para dar reposta à
crescente procura não apenas em termos quantitativos, mas em termos qualitativos
de diversificação e personalização da oferta.
Valoriza as novas metodologias de aprendizagem cooperativa e
promotora de inteligência coletiva. Este novo paradigma apresenta o docente
como facilitador e gestor da inteligência coletiva dos grupos.
Esta visão é perfeitamente atual em 2025 e está subjacente
ao Modelo Pedagógico Virtual da Universidade Aberta
Lévy, Pierre (2000). Cibercultura Instituto Piaget















Eu própria (myself) como se fosse outra
ResponderEliminarFaz-me pensar… quem sou eu?
Que diferentes funções assumimos na sociedade em que vivemos. Uma sociedade em rede, na qual nos relacionamos com diferentes pessoas em diferentes situações, para as quais encarnamos diferentes papéis…
Ora sou mãe, depois sou filha, por momentos sou esposa e maioritariamente sou mulher, mas grande parte do dia sou profissional…
Contudo, em qualquer dos papéis que assumo terei de me integrar numa sociedade em rede, o que significa que terei de me adaptar a diferentes contextos de forma a poder colaborar com pessoa de diferentes personalidades.
A verdadeira base de uma sociedade em rede é a capacidade de cada para comunicar e colaborar com o outro, aceitando a sua opinião através da partilha, cedendo quando necessário, mas sem nunca deixar de defender as suas opiniões por meio de argumentos fundamentados. Este equilíbrio sustenta o verdadeiro trabalho colaborativo promovendo resultados de sucesso.
O que espero desta UC é a aquisição de conhecimentos teóricos e sólidos que sirvam de suporte para as aprendizagens que irei adquirir ao longo do MPeL.
Espero poder contribuir com alguma da minha experiência prática na coordenação e implementação de projetos colaborativos internacionais com recurso ao digital.
Um abraço
Laura