Ambientes Virtuais de Aprendizagem


Tecnologias para a Criação de Ambientes Virtuais de Aprendizagem

Uma reflexão crítica de uma professora do ensino básico e secundário

by  Laura Silva Maria
03-05-26

Esta reflexão resulta de um debate de ideias associadas ao conceito de ecossistema virtual de aprendizagem e insere-se no tema 2 – Tecnologias para a Criação de Ambientes Virtuais de Aprendizagem - integrado na UC de Ambientes Virtuais de Aprendizagem sob a orientação do professor António Moreira.

 

Hibridismo ou blended learning

 



Um verdadeiro ecossistema digital tem de ter presente o conceito de hibridismo, não se resumindo ao blended learning em termos geográficos (presencial – a distância), mas um hibridismo que implique um equilíbrio do melhor que se faz em ambas estas vertentes (Moreira e Horta, 2020).

A imprevisibilidade originada pela pandemia Covid 19 e consequente encerramento das escolas veio obrigar os professores a reajustarem-se a uma nova forma de ensinar adotando uma variedade de novas metodologias, de modo a ir ao encontro das necessidades dos alunos.

Consequentemente, registou-se uma inevitável mudança de paradigma no processo de ensino e aprendizagem, sendo que mesmo os docentes mais céticos na utilização das tecnologias e mais “presos” a métodos tradicionais tiveram de sair da sua zona de conforto e aprender novas formas de ensinar.

Não julguemos, contudo, que a passagem do ensino presencial para o ensino a distância signifique uma mudança de um ensino expositivo para metodologias inovadoras e promotoras do envolvimento ativo do aluno. Muitos professores limitaram-se a expor os seus conteúdos através de uma plataforma como o Teams ou o Zoom, da mesma forma que o faziam na sala de aula presencial.

Retomemos, então, o conceito de hibridismo. Não está relacionado com geografia, mas com metodologia, intencionalidade pedagógica e aprendizagens significativas. Neste sentido, para Moreira e Horta (2020) uma educação mais híbrida permite “combinar diferentes presenças (físicas e digitais), tempos (síncronos e assíncronos), tecnologias (analógicas e digitais), culturas (pré-digital e digital) e, sobretudo, articular diferentes espaços e ambientes de aprendizagem (analógicos e digitais) (Moreira e Horta, 2020, p. 4). Desta forma, a tecnologia deverá estar sempre presente como auxiliar do agente humano (LabELO- Laboratório Multimédia de Estudos do Local, 2020).

  

O “espaço” nos ambientes virtuais de aprendizagem

Quando pensamos em espaço, muitas ideias nos poderão surgir: um local físico, uma sala de aula, um espaço ao ar livre, uma videochamada, uma rede social, uma plataforma digital….. muito mais espaços poderíamos imaginar.

No contexto dos ecossistemas virtuais de aprendizagem, qualquer espaço poderá ser considerado para o desenvolvimento / envolvimento de aprendizagens significativas em rede. Estejamos numa sala física, equipada tecnologicamente com várias áreas de trabalho (Ambiente Educativo Inovador) ou numa sala de aula tradicional, com acesso a uma plataforma digital que nos conecta com professores e alunos de outros países (eTwinning). Ou até no conforto das nossas casas a assistir a uma videoconferência ou a interagir em um fórum (Moodle).

Se olharmos o ambiente à nossa volta, questionamo-nos…afinal, o que é o espaço?

O espaço nada é ….. se não preenchido com interação, comunicação e atividade pedagógica intencional e significativa.

E assim nascem os verdadeiros ecossistemas de aprendizagem.

 

O que é um ambiente de ensino e aprendizagem inovador?

Segundo Moreira e Horta (2020), um ambiente de ensino e aprendizagem inovador pode ser

” enriquecido tecnologicamente, constituído por diferentes espaços flexíveis e reconfiguráveis, que desafiam os professores a repensar o papel da pedagogia, da tecnologia e do design da configuração espacial das salas de aula.” (Moreira e Horta, 2020, p.9).

Todavia, tendo presente o conceito de hibridismo do ponto de vista de Moreira e Horta (2020), um ambiente de ensino e aprendizagem inovador deverá ir para além das salas de aula físicas, podendo ser associado a plataformas digitais como o eTwinning ou de forma mais abrangente a outros Ambientes Pessoais de Aprendizagem, sendo que os Personal Learning Environments (PLE) são mais do que meras plataformas e ferramentas digitais. Para Atwell (2023) trata-se de uma abordagem social e pedagógica para a utilização da tecnologia na aprendizagem, definindo que os PLE potenciam o desenvolvimento de  

“… educational technology which can respond to the way people are using technology for learning and which allows them to themselves shape their own learning spaces, to form and join communities and to create, consume, remix, and share material.” (Atwell, 2007, como citado em Atwell 2023, p.2).

 

Vários estudos comprovam a eficácia dos PLE para os estudantes, na aquisição de aprendizagens impactantes, permitindo aprender fazendo e potenciando autonomia, discussão, pensamento crítico e uma aprendizagem iterativa (Cenka et al. 2023). Segundo o conectivismo de George Siemens, adquirimos competências ao criarmos redes de conexão em comunidades especializadas, de forma a alcançarmos aprendizagens significativas (Downes, 2005).

  

Considerações Finais

Fazendo uma análise retrospetiva, tendo sempre presente a minha visão de professora do ensino básico e secundário, concluo que é imperativo que os professores se mantenham em constante evolução e desenvolvimento profissional de forma a fazerem face à mutabilidade e imprevisibilidade dos tempos.

Numa sociedade em rede cada vez mais conectada através da Web 2.0 (LabELO- Laboratório Multimédia de Estudos do Local, 2020) os PLE poderão apresentar-se como uma alternativa cumulativa aos tradicionais formatos de organização, servindo de apoio ao ensino tradicional (Rodrigues e Miranda, 2013).

Tendo presente uma intencionalidade pedagógica alinhada com a idade dos aprendentes, considero pertinente a adaptação de práticas inerentes a este novo paradigma educacional, podendo haver mais ou menos orientação do professor e consequentemente promover uma maior ou menor autonomia nos alunos consoante a sua maturidade.

Ferramentas de acesso aberto da Web 2.0 são uma mais-valia no auxílio aos professores no desenvolvimento dos seus processos pedagógicos (LabELO- Laboratório Multimédia de Estudos do Local, 2020).

É essencial desenvolver hábitos e práticas associadas a um ensino interligado com os ecossistemas digitais de aprendizagem favorecendo um hibridismo alinhado com o conceito de educação total (Moreira e Horta, 2020).
abertura e flexibilidade destas metodologias viabiliza o recurso a uma variedade de ferramentas digitais, assim como interações diversas entre agentes humanos e não-humanos, 
de forma a promover a sua autonomia e desenvolvimento de competências-chave para o século XXI, como a cidadania, espírito crítico e analítico e capacidade de resolução de conflitos (Zhang et al., 2023).

Face ao exposto, independentemente da idade dos aprendentes, do nível de ensino e de estarmos perante ensino online ou presencial, acredito ser exequível e viável que os professores recorram a práticas que facilitem uma participação ativa dos aprendentes na sua aprendizagem e visem o desenvolvimento de competências cognitivas e sociais, assim como a produção de conhecimento através de redes de conectividade e partilha.

  

Referências

 

Attwell, G. (2023). Personal Learning Environments: looking back and looking forward. Revista de Educación a Distancia (RED), 23(71). https://doi.org/10.6018/red.526911

Cenka, B. A., Santoso, H. B., & Junus, K. (2023). Personal learning environment toward lifelong learning: an ontology-driven conceptual model. Interactive Learning Environments31(10), 6445–6461. https://doi.org/10.1080/10494820.2022.2039947

Downes, S. (2005). E-learning 2.0. eLearn Magazine. http://www.elearnmag.org/subpage.cfm?section=articles&article=29-1 

LabELO- Laboratório Multimédia de Estudos do Local (2020, março 29). Vídeo2 TecnologiasDigitais amoreiraSIED [Vídeo]. YouTube https://youtu.be/x6juVIg0dGA?si=JSF5WU21PwJ2HLwL

Moreira, J. A., & Horta, M. J. (2020). Educação e ambientes híbridos de aprendizagem: Um processo de inovação sustentada. Revista UFG20, e66027. https://doi.org/10.5216/revufg.v20.66027

Zhang, Y., Xu, X., Zhang, M., Cai, N., Lei, V.NL. (2023). Personal Learning Environments and Personalized Learning in the Education Field: Challenges and Future Trends. In: Hong, C., Ma, W.W.K. (eds) Applied Degree Education and the Shape of Things to Come. Lecture Notes in Educational Technology. Springer, Singapore. https://doi.org/10.1007/978-981-19-9315-2_13



                                              ____________________________________________________________



Os Ecossistemas de Educação Digital e a

 Plataforma eTwinning

by  Laura Silva Maria
29-03-26




Para entendermos o conceito de ecossistema de educação digital, não podemos deixar de ter presente toda uma evolução filosófica e sociológica resultante da revolução informacional no final do século XX, que fomentou o desenvolvimento de uma sociedade em rede com conectividade global (Castells, 1999). Não obstante, em termos conceptuais, atualmente verificamos uma evolução significativa do que é um ecossistema de educação digital face à sociedade em rede do final do século XX.

Pretendo com este artigo fazer uma reflexão comparativa sobre a forma como a plataforma eTwinning reflete alguns ideais de autores como Bauman, Floridi, Latour, Moreira, Novak, Requena e Santaella.

Os projetos eTwinning são desenvolvidos numa plataforma online europeia, fechada e segura. Estão integradas na comunidade eTwinning escolas de 46 países que desenvolvem projetos escolares colaborativos com recurso ao digital. Alinhado com o conceito de educação analógico-digital (Moreira&Trindade, 2019), os projetos eTwinning são desenvolvidos em sala de aula, podendo integrar atividades “tradicionais” com metodologias ativas e inovadoras, com recurso a uma plataforma digital. A metodologia preponderante subjacente aos projetos eTwinning é a metodologia baseada em projetos, que promove o desenvolvimento de competências-chave para preparar indivíduos para o mercado de trabalho global.

Indo ao encontro do conceito de infoesfera, (Floridi, citado em Moreira, 2025), passou-se do ensino centrado no professor a aprendizagem com foco no aluno, em relação com outros alunos em outros países, fora do espaço físico da aula. Do trabalho colaborativo internacional desenvolvido na plataforma eTwinning, resulta a co-construção de conhecimento coletivo (Bauman, citado em Moreira, 2025). Ainda alinhado com os ideais de Floridi (citado em Moreira, 2025), a plataforma eTwinning promove a privacidade e respeito dos alunos, sendo todo o trabalho desenvolvido em consonância com o Regulamento Geral de Proteção de Dados.

Coerente com a ideia de educação híbrida no sentido de Latour (citado em Moreira, 2025), que transpõe as fronteiras da sala de aula formal, o eTwinning abra a sala de aula ao mundo, fomentando competências interculturais.  Identifica-se aqui um certo paralelismo com a arquitetura líquida de Marcos Novak (citado em Moreira, 2025) que prevê a substituição da sala de aula física por um ecossistema digital mais abrangente.

A aprendizagem líquida defendida por Bauman (citado em Moreira, 2025) está bem patente nos projetos eTwinning.  Os alunos não só adquirem os conteúdos em contextos reais, mas também desenvolvem competências como a comunicação, colaboração, espírito criativo e analítico, responsabilidade e resiliência numa perspetiva de aprendizagem ao longo da vida. Desta forma estaremos a preparar indivíduos capazes de serem bem-sucedidos numa sociedade moderna marcada pela instabilidade, devendo estar aptos a adaptarem-se à mutabilidade dos percursos educativos e profissionais (Bauman, citado em Moreira, 2025).

Requena (citado em Moreira, 2025) vai mais além quando refere a co-autoria da aprendizagem, considerando que o ambiente de um espaço educativo afetuoso integra essa mesma co-autoria.  Este ideal está perfeitamente alinhado com a metodologia eTwinning, sendo que as parcerias internacionais e o trabalho colaborativo promovem a empatia e relações afetivas duradouras.

 

Os habitantes das ecologias de aprendizagem e os projetos eTwinning

Para autores como Floridi, Bauman, Latour e Santaella (citados em Moreira, 2025) os habitantes das ecologias de aprendizagem não são apenas elementos humanos, mas todos os elementos que integram a rede, sendo participantes ativos no processo educativo, incluindo os dispositivos móveis, assistentes virtuais e sistemas de inteligência artificial.

No que concerne à plataforma eTwinning, o acesso é restrito e seguro, não permitindo aos alunos navegar por “espaços” cujo acesso é mediado por algoritmos e que utilizam sistemas que influenciam a que conteúdos os alunos têm acesso. Embora os assistentes virtuais e sistemas de inteligência artificial não sejam partes integrantes da plataforma eTwinning, o seu desenvolvimento fora da plataforma e posterior integração na mesma é viável e encorajada se devidamente acompanhada pelo professor. Assim sendo, o professor deverá orientar os alunos no sentido de desenvolverem as literacias necessárias que lhes permitam fazer uma análise crítica, ética e responsável da inteligência artificial para a criação dos produtos a integrar nos projetos eTwinning.

 

Conclusão e desafios

Refletindo sobre os projetos eTwinning à luz dos ideais dos diversos autores citados, podemos concluir que “Os ecossistemas educativos digitais não podem, nem devem ser concebidos apenas como plataformas tecnológicas, mas como espaços híbridos que acolhem a complexidade emocional, social e cultural dos seus habitantes (professores e estudantes).” (Moreira, 2025, p.17).

É inegável o esforço a nível das políticas europeias na promoção de uma aprendizagem digital inclusiva e de qualidade com a implementação do Plano de Ação para a Educação Digital (Comissão Europeia, 2020). Contudo, na prática letiva atual, ainda nos deparamos com alguns desafios que carecem de atenção e que deixo para reflexão:

-Dificuldade de alguns professores em se “libertarem” de um ensino tradicional, expositivo e centrado no professor;

-Falta de formação de professores adequada a nível tecnológico e metodológico;

-Falta de envolvimento das estruturas institucionais – direções das escolas, sendo fulcral um reforço no desenvolvimento de estratégias institucionais relativas à utilização prática e sustentada de ecossistemas de educação digital.

 

Referências

Castells, M. (1999). A era da informação: Economia, sociedade e cultura: Vol. I. A sociedade em rede (2ªed.). Paz e Terra

Comissão Europeia. (2020). Plano de Ação para a Educação Digital 2021-2027: Reconfigurar a educação e a formação para a era digital (COM/2020/624 final).

E-Rede-UAb. (2019, 31 de outubro). [METODOLOGIAS ATIVAS] #2 Era Híbrida e Educação Disruptiva: António Moreira e Sara Dias-Trindade [Vídeo]. YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=z3q5sbjifZA

Moreira, J. A. (2025). Novos Ecossistemas de Aprendizagem nos Territórios Híbridos da Noosfera . Santo Tirso: Whitebooks.

 


Sem comentários:

Enviar um comentário