Para entendermos o conceito de
ecossistema de educação digital, não podemos deixar de ter presente toda uma
evolução filosófica e sociológica resultante da revolução informacional no
final do século XX, que fomentou o desenvolvimento de uma sociedade em rede com
conectividade global (Castells, 1999). Não obstante, em termos conceptuais,
atualmente verificamos uma evolução significativa do que é um ecossistema de
educação digital face à sociedade em rede do final do século XX.
Pretendo com este artigo fazer uma
reflexão comparativa sobre a forma como a plataforma eTwinning reflete
alguns ideais de autores como Bauman, Floridi, Latour, Moreira, Novak, Requena
e Santaella.
Os projetos eTwinning são
desenvolvidos numa plataforma online europeia, fechada e segura. Estão integradas
na comunidade eTwinning escolas de 46 países que desenvolvem projetos escolares
colaborativos com recurso ao digital. Alinhado com o conceito de educação analógico-digital
(Moreira&Trindade, 2019), os projetos eTwinning são desenvolvidos em
sala de aula, podendo integrar atividades “tradicionais” com metodologias
ativas e inovadoras, com recurso a uma plataforma digital. A metodologia
preponderante subjacente aos projetos eTwinning é a metodologia baseada
em projetos, que promove o desenvolvimento de competências-chave para preparar
indivíduos para o mercado de trabalho global.
Indo ao encontro do conceito de infoesfera,
(Floridi, citado em Moreira, 2025), passou-se do ensino centrado no professor a
aprendizagem com foco no aluno, em relação com outros alunos em outros países,
fora do espaço físico da aula. Do trabalho colaborativo internacional desenvolvido
na plataforma eTwinning, resulta a co-construção de conhecimento coletivo
(Bauman, citado em Moreira, 2025). Ainda alinhado com os ideais de Floridi
(citado em Moreira, 2025), a plataforma eTwinning promove a privacidade
e respeito dos alunos, sendo todo o trabalho desenvolvido em consonância com o Regulamento
Geral de Proteção de Dados.
Coerente com a ideia de educação
híbrida no sentido de Latour (citado em Moreira, 2025), que transpõe as fronteiras
da sala de aula formal, o eTwinning abra a sala de aula ao mundo,
fomentando competências interculturais. Identifica-se
aqui um certo paralelismo com a arquitetura líquida de Marcos Novak (citado em
Moreira, 2025) que prevê a substituição da sala de aula física por um
ecossistema digital mais abrangente.
A aprendizagem líquida defendida por
Bauman (citado em Moreira, 2025) está bem patente nos projetos eTwinning. Os alunos não só adquirem os conteúdos em
contextos reais, mas também desenvolvem competências como a comunicação,
colaboração, espírito criativo e analítico, responsabilidade e resiliência numa
perspetiva de aprendizagem ao longo da vida. Desta forma estaremos a preparar
indivíduos capazes de serem bem-sucedidos numa sociedade moderna marcada pela
instabilidade, devendo estar aptos a adaptarem-se à mutabilidade dos percursos
educativos e profissionais (Bauman, citado em Moreira, 2025).
Requena (citado em Moreira, 2025) vai
mais além quando refere a co-autoria da aprendizagem, considerando que o
ambiente de um espaço educativo afetuoso integra essa mesma co-autoria. Este ideal está perfeitamente alinhado com a
metodologia eTwinning, sendo que as parcerias internacionais e o
trabalho colaborativo promovem a empatia e relações afetivas duradouras.
Os habitantes das ecologias de aprendizagem e os projetos
eTwinning
Para autores como Floridi, Bauman, Latour e Santaella
(citados em Moreira, 2025) os habitantes das ecologias de aprendizagem não são
apenas elementos humanos, mas todos os elementos que integram a rede, sendo
participantes ativos no processo educativo, incluindo os dispositivos móveis, assistentes
virtuais e sistemas de inteligência artificial.
No que concerne à plataforma eTwinning, o acesso é
restrito e seguro, não permitindo aos alunos navegar por “espaços” cujo acesso
é mediado por algoritmos e que utilizam sistemas que influenciam a que
conteúdos os alunos têm acesso. Embora os assistentes virtuais e sistemas de
inteligência artificial não sejam partes integrantes da plataforma eTwinning,
o seu desenvolvimento fora da plataforma e posterior integração na mesma é
viável e encorajada se devidamente acompanhada pelo professor. Assim sendo, o
professor deverá orientar os alunos no sentido de desenvolverem as literacias
necessárias que lhes permitam fazer uma análise crítica, ética e responsável da
inteligência artificial para a criação dos produtos a integrar nos projetos eTwinning.
Conclusão e desafios
Refletindo sobre os projetos eTwinning à luz dos
ideais dos diversos autores citados, podemos concluir que “Os ecossistemas
educativos digitais não podem, nem devem ser concebidos apenas como plataformas
tecnológicas, mas como espaços híbridos que acolhem a complexidade emocional,
social e cultural dos seus habitantes (professores e estudantes).” (Moreira,
2025, p.17).
É inegável o esforço a nível das políticas europeias na
promoção de uma aprendizagem digital inclusiva e de qualidade com a
implementação do Plano de Ação para a Educação Digital (Comissão Europeia,
2020). Contudo, na prática letiva atual, ainda nos deparamos com alguns
desafios que carecem de atenção e que deixo para reflexão:
-Dificuldade
de alguns professores em se “libertarem” de um ensino tradicional, expositivo e
centrado no professor;
-Falta
de formação de professores adequada a nível tecnológico e metodológico;
-Falta de envolvimento das estruturas
institucionais – direções das escolas, sendo fulcral um reforço no
desenvolvimento de estratégias institucionais relativas à utilização prática e
sustentada de ecossistemas de educação digital.
Referências
Castells, M. (1999). A
era da informação: Economia, sociedade e cultura: Vol. I. A sociedade em rede
(2ªed.). Paz e Terra
Comissão Europeia.
(2020). Plano de Ação para a Educação Digital 2021-2027: Reconfigurar a
educação e a formação para a era digital (COM/2020/624 final).
E-Rede-UAb. (2019, 31 de
outubro). [METODOLOGIAS ATIVAS] #2 Era Híbrida e Educação Disruptiva:
António Moreira e Sara Dias-Trindade [Vídeo]. YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=z3q5sbjifZA
Moreira, J. A. (2025). Novos Ecossistemas de Aprendizagem
nos Territórios Híbridos da Noosfera . Santo Tirso: Whitebooks.

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