Uma reflexão crítica de uma professora do ensino básico e secundário
by Laura Silva Maria
Esta reflexão resulta de um debate de ideias associadas ao conceito
de ecossistema virtual de aprendizagem e insere-se no tema 2 – Tecnologias para
a Criação de Ambientes Virtuais de Aprendizagem - integrado na UC de Ambientes
Virtuais de Aprendizagem sob a orientação do professor António Moreira.
Hibridismo ou blended learning
Um verdadeiro ecossistema digital tem de ter presente o conceito de hibridismo, não se resumindo ao blended learning em termos geográficos (presencial – a distância), mas um hibridismo que implique um equilíbrio do melhor que se faz em ambas estas vertentes (Moreira e Horta, 2020).
A imprevisibilidade originada pela pandemia Covid 19 e
consequente encerramento das escolas veio obrigar os professores a
reajustarem-se a uma nova forma de ensinar adotando uma variedade de novas
metodologias, de modo a ir ao encontro das necessidades dos alunos.
Consequentemente, registou-se uma inevitável mudança de
paradigma no processo de ensino e aprendizagem, sendo que mesmo os docentes
mais céticos na utilização das tecnologias e mais “presos” a métodos
tradicionais tiveram de sair da sua zona de conforto e aprender novas formas de
ensinar.
Não julguemos, contudo, que a passagem do ensino presencial
para o ensino a distância signifique uma mudança de um ensino expositivo para
metodologias inovadoras e promotoras do envolvimento ativo do aluno. Muitos
professores limitaram-se a expor os seus conteúdos através de uma plataforma
como o Teams ou o Zoom, da mesma forma que o faziam na sala de
aula presencial.
Retomemos, então, o conceito de hibridismo. Não está
relacionado com geografia, mas com metodologia, intencionalidade pedagógica
e aprendizagens significativas. Neste sentido, para Moreira e Horta (2020)
uma educação mais híbrida permite “combinar diferentes presenças (físicas e
digitais), tempos (síncronos e assíncronos), tecnologias (analógicas e
digitais), culturas (pré-digital e digital) e, sobretudo, articular diferentes
espaços e ambientes de aprendizagem (analógicos e digitais) (Moreira e Horta,
2020, p. 4). Desta forma, a tecnologia deverá estar sempre presente como
auxiliar do agente humano (LabELO- Laboratório Multimédia de Estudos do Local,
2020).
O “espaço” nos ambientes virtuais de aprendizagem
Quando pensamos em espaço, muitas ideias nos poderão
surgir: um local físico, uma sala de aula, um espaço ao ar livre, uma
videochamada, uma rede social, uma plataforma digital….. muito mais espaços
poderíamos imaginar.
No contexto dos ecossistemas virtuais de aprendizagem,
qualquer espaço poderá ser considerado para o desenvolvimento / envolvimento de
aprendizagens significativas em rede. Estejamos numa sala física,
equipada tecnologicamente com várias áreas de trabalho (Ambiente Educativo
Inovador) ou numa sala de aula tradicional, com acesso a uma plataforma
digital que nos conecta com professores e alunos de outros países (eTwinning).
Ou até no conforto das nossas casas a assistir a uma videoconferência ou a
interagir em um fórum (Moodle).
Se olharmos o ambiente à nossa volta, questionamo-nos…afinal,
o que é o espaço?
O espaço nada é ….. se não preenchido com interação,
comunicação e atividade pedagógica intencional e significativa.
E assim nascem os verdadeiros ecossistemas de aprendizagem.
O que é um ambiente de ensino e aprendizagem inovador?
Segundo Moreira e Horta (2020), um ambiente de ensino e
aprendizagem inovador pode ser
” enriquecido tecnologicamente, constituído por diferentes
espaços flexíveis e reconfiguráveis, que desafiam os professores a repensar o
papel da pedagogia, da tecnologia e do design da configuração espacial das
salas de aula.” (Moreira e Horta, 2020, p.9).
Todavia, tendo presente o conceito de hibridismo do
ponto de vista de Moreira e Horta (2020), um ambiente de ensino e aprendizagem
inovador deverá ir para além das salas de aula físicas, podendo ser associado a
plataformas digitais como o eTwinning ou de forma mais abrangente
a outros Ambientes Pessoais de Aprendizagem, sendo que os Personal Learning Environments
(PLE) são mais do que meras plataformas e ferramentas digitais. Para Atwell (2023)
trata-se de uma abordagem social e pedagógica para a utilização da tecnologia
na aprendizagem, definindo que os PLE potenciam o desenvolvimento de
“…
educational technology which can respond to the way people are using technology
for learning and which allows them to themselves shape their own learning
spaces, to form and join communities and to create, consume, remix, and share
material.” (Atwell, 2007, como citado em Atwell 2023,
p.2).
Vários estudos comprovam a eficácia dos PLE para os estudantes,
na aquisição de aprendizagens impactantes, permitindo aprender
fazendo e potenciando autonomia, discussão, pensamento crítico e uma aprendizagem iterativa (Cenka et al. 2023). Segundo o
conectivismo de George Siemens, adquirimos competências ao criarmos redes de
conexão em comunidades especializadas, de forma a alcançarmos aprendizagens
significativas (Downes, 2005).
Considerações Finais
Fazendo uma análise retrospetiva, tendo sempre presente a
minha visão de professora do ensino básico e secundário, concluo que é
imperativo que os professores se mantenham em constante evolução e desenvolvimento
profissional de forma a fazerem face à mutabilidade e imprevisibilidade
dos tempos.
Numa sociedade
em rede cada vez mais conectada através da Web 2.0 (LabELO- Laboratório
Multimédia de Estudos do Local, 2020) os PLE poderão apresentar-se como
uma alternativa cumulativa aos tradicionais formatos de organização, servindo
de apoio ao ensino tradicional (Rodrigues e Miranda, 2013).
Tendo presente uma intencionalidade pedagógica alinhada com a idade dos aprendentes, considero pertinente a adaptação de práticas inerentes a este novo paradigma educacional, podendo haver mais ou menos orientação do professor e consequentemente promover uma maior ou menor autonomia nos alunos consoante a sua maturidade.
Ferramentas de acesso aberto da Web 2.0 são uma mais-valia no
auxílio aos professores no desenvolvimento dos seus processos pedagógicos (LabELO-
Laboratório Multimédia de Estudos do Local, 2020).
É
essencial desenvolver hábitos e práticas associadas a um ensino interligado
com os ecossistemas digitais de aprendizagem
favorecendo um hibridismo alinhado com o conceito de educação total
(Moreira e Horta, 2020).
A abertura e flexibilidade destas metodologias viabiliza o recurso a uma
variedade de ferramentas digitais, assim como interações diversas entre
agentes humanos e não-humanos, de forma a
promover a sua autonomia e desenvolvimento de competências-chave para o
século XXI, como a cidadania, espírito crítico e analítico e capacidade de
resolução de conflitos (Zhang et al., 2023).
Face
ao exposto, independentemente da idade dos aprendentes, do nível de ensino e de
estarmos perante ensino online ou presencial, acredito ser exequível e viável
que os professores recorram a práticas que facilitem uma participação ativa dos
aprendentes na sua aprendizagem e visem o desenvolvimento de competências
cognitivas e sociais, assim como a produção de conhecimento através de redes de
conectividade e partilha.
Referências
Attwell, G. (2023). Personal
Learning Environments: looking back and looking forward. Revista de Educación a Distancia (RED),
23(71). https://doi.org/10.6018/red.526911
Cenka,
B. A., Santoso, H. B., & Junus, K. (2023). Personal learning
environment toward lifelong learning: an ontology-driven conceptual model. Interactive
Learning Environments, 31(10), 6445–6461. https://doi.org/10.1080/10494820.2022.2039947
Downes, S. (2005). E-learning
2.0. eLearn Magazine. http://www.elearnmag.org/subpage.cfm?section=articles&article=29-1
LabELO-
Laboratório Multimédia de Estudos do Local (2020, março 29). Vídeo2
TecnologiasDigitais amoreiraSIED [Vídeo]. YouTube https://youtu.be/x6juVIg0dGA?si=JSF5WU21PwJ2HLwL
Moreira, J.
A., & Horta, M. J. (2020). Educação e ambientes híbridos de aprendizagem:
Um processo de inovação sustentada. Revista UFG, 20,
e66027. https://doi.org/10.5216/revufg.v20.66027
Zhang, Y., Xu, X., Zhang, M., Cai, N., Lei, V.NL. (2023). Personal Learning Environments and Personalized Learning in the Education Field: Challenges and Future Trends. In: Hong, C., Ma, W.W.K. (eds) Applied Degree Education and the Shape of Things to Come. Lecture Notes in Educational Technology. Springer, Singapore. https://doi.org/10.1007/978-981-19-9315-2_13












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