domingo, 25 de janeiro de 2026

Educar para quê, porquê e com o quê, na era da Inteligência Artificial?

 by Laura Silva Maria

                             Imagem gerada por IA - Chat GPT


A aplicação prática da Inteligência Artificial (IA) na educação deverá ter um impacto benéfico em todos os seus intervenientes: professores, aprendentes e famílias. Não obstante, deveremos estar conscientes dos potenciais riscos e efeitos negativos associados, pondo em causa a ética na educação, assim como a ética dos dados e, desta forma, comprometendo valores básicos preconizados na Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948).   

Um aspeto prioritário do Plano de Ação para a Educação Digital (2021-2027), é a necessidade de haver “conteúdos de elevada qualidade, ferramentas intuitivas e plataformas seguras, respeitando a privacidade e as normas éticas.” Assim como um “bom conhecimento e compreensão das tecnologias com utilização intensiva de dados, como a IA.”(Comissão Europeia, 2020).

Como pode a utilização de ferramentas baseadas em IA generativa ampliar a aprendizagem autónoma e aberta sem reforçar desigualdades, reduzir a agência do estudante (aprendente) ou colocar em risco critérios de rigor académico?

A resposta a esta questão carece de uma contextualização mais generalizada sobre a utilização de sistemas de IA nas instituições educativas.


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Planeamento a nível da instituição sobre a adequabilidade da utilização de IA

A implementação de um sistema de IA numa instituição educativa deverá partir de uma reflexão cuidada entre os diversos intervenientes, analisando o contexto educativo e as necessidades, de forma a que seja tomada uma decisão consciente e ponderada.

Deverão ser avaliados os impactos benéficos na instituição, nos professores, nos aprendentes e no processo de ensino-aprendizagem, da mesma forma que terão de ser equacionados os perigos e os riscos inerentes. A comunicação e colaboração com outras instituições, assim como a análise de atuais sistemas de IA e de dados pode facilitar a compreensão da temática. O acompanhamento por um fornecedor de sistema de IA é essencial para ajudar a controlar o funcionamento do sistema. O perito pode facilitar a introdução gradual do sistema, permitindo uma monitorização constante e avaliação dos riscos.

Compreender o que é a IA e a relação com a ética dos dados na educação

                                                 Imagem gerada por IA - Chat GPT


Para uma utilização responsável e consciente da IA, antes de mais, os seus utilizadores terão de compreender o que é a IA, como funciona e qual a sua relação com os dados.

Os dados recolhidos pelos sistemas de inteligência artificial são disponibilizados por todos nós que navegamos na Internet. Através da nossa pegada digital vamos fornecendo uma vasta quantidade de dados, que são utilizados por software “treinado” para reformular a informação obtida, sendo capaz de criar resultados de acordo com as solicitações dos humanos.

Na educação, a análise do rastreio dos dados educativos através da inteligência artificial é benéfica para a compreensão do estado da arte em determinado contexto educativo e, consequentemente, desenvolver um planeamento estratégico para dar resposta a determinadas fragilidades identificadas.  Ao contexto escolar acresce a recolha de um elevado número de dados de professores, alunos e famílias, associados aos processos administrativos. Assim sendo, a instituição deverá assegurar a confidencialidade no armazenamento dos dados educativos de modo a garantir a sua utilização ética de acordo com o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD).

Informação e formação

Para garantir a transparência dos processos inerentes à implementação de sistemas de IA nas instituições escolares, todos os intervenientes deverão estar informados.  A instituição deve comunicar com os pais e com os alunos, garantindo o envolvimento de toda a comunidade escolar. Os professores devem manter-se atualizados, de forma a garantir a explicabilidade do processo.

Sendo a IA um mundo muito vasto e complexo, os educadores não deverão sentir-se na obrigação de dominar esta temática na totalidade e de forma aprofundada. Deverão sim, centrar-se na forma como em contexto educacional se pode beneficiar da utilização da IA de forma crítica, segura, inclusiva e ética.

O papel do professor

O professor deverá encarar a IA como uma aliada que o poderá auxiliar em tarefas como a utilização ética da IA dos dados, atividades de ensino-aprendizagem promotoras de criatividade e espírito crítico e atividades de avaliação.  A utilização de IA em tarefas administrativas e automatizadas libertará o professor das mesmas, tendo mais tempo e disponibilidade para atividades significativas com os alunos.

Diretrizes europeias sobre a utilização ética de IA na educação

Tendo presente os cuidados prévios a ter com a implementação de sistemas de IA numa escola, deverão ser tidos em conta as orientações e normativos europeus sobre a utilização ética da IA na educação. Os valores e princípios estabelecidos pelo direito internacional reforçam a necessidade de garantir a dignidade humana em todas as fases do ciclo de vida dos sistemas de IA e não apenas aquando da sua implementação na escola. Defendem a inclusão, diversidade, igualdade e bem-estar físico e mental de todos os intervenientes. Alertam para o perigo de distorções ou vieses que podem comprometer a justiça e igualdade, podendo resultar em discriminação e exclusão. Assim sendo, deverão ser tomadas medidas de mitigação de riscos através de uma monitorização e avaliação contínua dos impactos. A transparência e explicabilidade ao longo de todo o processo, garante a todos um tratamento ético e justo dos seus dados pessoais.

As instituições escolares, ao refletirem sobre as quatro considerações que servem de base à utilização ética da IA - ação humana, equidade, humanidade e escolha justificada – assim como ao analisarem as perguntas inerentes aos sete requisitos essenciais para uma IA de confiança (Comissão Europeia, 2022), asseguram uma utilização adequada da IA na sua instituição, pelos professores e pelos aprendentes. Assim sendo, estão reunidas as condições para garantir que os aprendentes utilizem ferramentas baseadas em IA generativa de forma a ampliar a aprendizagem autónoma e aberta sem reforçar desigualdades e sem reduzir a sua agência ou colocar em risco critérios de rigor académico.

 

Que princípios e práticas deve um código de boas práticas incluir para usar a IA generativa como instrumento de estruturação da aprendizagem em contextos de educação aberta e digital, assegurando transparência e autoria, qualidade académica, inclusão e proteção dos dados?

Os compromissos a assumir no âmbito deste código de boas práticas deverão ser direcionados para os diferentes intervenientes:

Instituição

● Garantir os pré-requisitos para a implementação do sistema, reforçando a segurança das infraestruturas;

● Monitorizar e avaliar o processo ao longo de todo o ciclo de implementação;

● Facilitar formação aos professores no âmbito do regulamento de utilização, literacia e ética da IA;

● Promover ações de informação junto das famílias e comunidade escolar, garantindo a transparência e explicabilidade do processo;

● Assegurar uma implementação ética da IA e dos dados, respeitando as normas RGPD.

 

Professor

● Manter-se informado e frequentar formação que o capacite para a utilização ética e responsável da IA no processo de ensino e aprendizagem;

● Utilizar recursos de forma ética e responsável respeitando as normas sobre direito de autor e direitos conexos;

● Respeitar a política de privacidade e segurança dos dados de forma a não partilhar dados sensíveis;

● Garantir a equidade nas condições de acesso dos aprendentes a ferramentas de IA.

 

Aluno/aprendente

● Utilizar as ferramentas de IA generativa de acordo com as indicações do professor;

● Em caso de utilização de ferramentas de IA identificar a fonte, a data e a forma como a informação foi utilizada para a realização da tarefa;

● Utilizar as ferramentas de IA de forma ética e crítica no processo de aprendizagem, respeitando as normas sobre direito de autor e direitos conexos;

● Utilizar a IA como ponto de partida ou complemento e nunca em substituição do próprio pensamento crítico e criativo;

● Ter consciência de que a IA pode conter erros, pelo que a informação deverá ser sempre confirmada com fontes fidedignas;

● Ter consciência de que os tutores virtuais são máquinas inteligentes sem sentido empático.

  

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Reflexões finais

Com o desenvolvimento acelerado da tecnologia, as potencialidades da inteligência artificial aumentam exponencialmente. Da mesma forma, os resultados tornam-se mais fiáveis, não só em termos de conteúdos, mas igualmente no que concerne à ética e proteção de dados, havendo requisitos obrigatórios para o desenvolvimento de sistemas de IA que asseguram a sua fiabilidade.

É imprescindível que todos os intervenientes na educação e formação (professores, formadores, diretores, investigadores), se mantenham atualizados, de forma a poderem acompanhar o ritmo da evolução e estarem aptos a capacitar os aprendentes para uma utilização autónoma, responsável, crítica e ética da inteligência artificial, sem comprometer o rigor académico.

 

Consulta de Chat GPT na procura de Linhas orientadoras para a utilização da inteligência artificial na Universidade Aberta, para a sua referenciação APA.

 

 

Referências APA

European Commission. (2022). Ethical guidelines for educators on using artificial intelligence. European Education Area. https://education.ec.europa.eu/focus-topics/digital-education/action-plan/ethical-guidelines-for-educators-on-using-ai

European Union. (s.d.). Ethical guidelines on the use of artificial intelligence (AI) [Vídeo]. EC Audiovisual Service. https://audiovisual.ec.europa.eu/en/video/I-232180?lg=EN&sublg=pt

European Commission. (2022). Orientações éticas para educadores sobre a utilização de inteligência artificial (IA) e de dados no ensino e na aprendizagem (Nr. de catálogo NC-07-22-649-PT-N; ISBN 978-92-76-54204-9) [PDF]. Publications Office of the European Union. https://op.europa.eu/pt/publication-detail/-/publication/d81a0d54-5348-11ed-92ed-01aa75ed71a1/language-pt

European Commission. (2020). Plano de ação para a educação digital [Página web]. European Education Area. https://education.ec.europa.eu/pt-pt/focus-topics/digital-education/plan

UNESCO. (2022). Recomendação sobre a ética da inteligência artificial [Documento normativo]. UNESCO. https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000381137_por

Universidade Aberta. (2024). Linhas orientadoras para a utilização da inteligência artificial na Universidade Aberta (Despacho nº 64/R/2024). Universidade Aberta, Lisboa.

 

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