Pierre Lévy, filósofo e sociólogo francês, visionário, há mais de 30 anos anteviu os impactos que a Internet teria no futuro da humanidade. Desenvolveu vários conceitos, sendo um dos mais importantes o de cibercultura. Uma breve reflexão sobre o contexto histórico-social por trás deste conceito, assim como a interligação a outras conceções referidas por Pierre Levy na sua obra Cibercultura irão facilitar a compreensão da noção de cibercultura.
Cibercultura e o dilúvio do desenvolvimento tecnológico
Albert Einstein referiu que no séc. XX, para além da bomba atómica, explodiram duas bombas, a bomba demográfica e a bomba tecnológica, denominada por Roy Ascott como o segundo dilúvio. O paralelismo apresentado entre a tecnologia e o dilúvio prende-se com o crescimento exponencial e descontrolado da tecnologia, semelhante a uma inundação, neste caso um fluxo de informação desordenada e caótica, com as suas inúmeras fontes, ligadas em tempo real em todo o mundo.
Este dilúvio anárquico, com um sentido global cada vez mais ilegível, paradoxalmente, abriu caminho para a procura de soluções práticas na resolução do caos instalado. Estamos perante um dilúvio que não terá fim e no qual teremos de conseguir flutuar. Será que Noé saberá fazer a melhor opção para a sua arca? Ou, será que no meio deste dilúvio infinito haverá várias arcas com vários Noés a fazerem diferentes escolhas? Todos nós somos um Noé, com as nossas opções individuais, sendo que várias inteligências individuais resultam em inteligência coletiva. Pierre Lévy (2000, p.17) defende que “Os instrumentos que construímos dão-nos poderes mas, colectivamente responsáveis, temos a escolha nas nossas mãos.”
Como cidadãos responsáveis devemos procurar selecionar, através de uma filtragem consciente, a informação mais adequada, éticamente correta e fidedigna.
Este dilúvio exponencial de desenvolvimento tecnológico está alinhado com o desenvolvimento demográfico do séc. XX, criando as condições para os três princípios da cibercultura - interligação, comunidades virtuais, inteligência coletiva. Dando voz a um movimento social, um grupo humano busca o ideal de inteligência coletiva através de uma comunidade virtual, inserida no ciberespaço.
A inteligência coletiva, um dos principais conceitos associados à cibercultura, vem dar resposta ao caos do dilúvio tecnológico. Através das memórias comuns e da contextualização é atribuída uma significação às mudanças tecnológicas.
O ciberespaço, embora condicione e prepare o terreno para o desenvolvimento da inteligência coletiva, não o determina. A inteligência coletiva resulta de uma interação flexível e abrangente, a memória comum de um grupo humano, que representa o verdadeiro virtual. O verdadeiro mundo virtual é o da significação atribuída, uma vez que não há ligação a um tempo ou lugar definidos.
Este dinamismo coletivo de interligações transversais e a comunicação interativa em tempo real originaram uma nova universalidade inerente à cibercultura. “A cibercultura exprime a ascenção de um novo universal”(Lévy, 2000, p.15).
Contrariamente ao universal totalizante que não está sujeito à significação do contexto, o novo universal sem totalidade, da humanidade, estabelece-se pela contextualização semântica generalizada do coletivo inteligente humano.
“A cibercultura, correspondente à mundialização concreta das sociedades, que inventa um universal sem totalidade.” (Lévy, 2000, p.274)
Lévy (2000, p.17) define a cibercultura como “o conjunto das técnicas (materiais e intelectuais), as práticas, as atitudes, as maneiras de pensar e os valores que se desenvolvem conjuntamente com o crescimento do ciberespaço.” Considerando os conceitos acima apresentados, iria mais além ao acrescentar que a cibercultura é um fenómeno vivo em constante atualização no ciberespaço, que em consequência do desenvolvimento tecnológico influenciou significativamente a humanidade em termos civilizacionais, sociais, culturais, económicos, artísticos e educacionais.
Exemplos de cibercultura
A Intranet
Atualmente largamente utilizada por empresas e entidade públicas, foi há anos reconhecida por Lévy como uma forma de facilitar a transparência entre as organizações que a utilizam. Permite a correspondência, colaboração e partilha de documentos internamente, facilitando a organização interna das empresas. Não obstante, está inserida no ciberespaço global.
O Blogue
A nível mais atual, o blogue é utilizado como ferramenta de trabalho e avaliação colaborativa no âmbito do Modelo Pedagógico Virtual da Universidade Aberta. O blogue como Recurso Educacional Aberto é um canalizador de inteligência coletiva de qualidade. O facto de o autor partilhar o seu trabalho de forma aberta e acessível a toda a gente, irá inevitavelmente contribuir para uma filtragem do conteúdo a ser partilhado. A interação transversal facilitada pelo blogue, permite uma apendizagem em rede, de forma interativa e colaborativa.
As Árvores do Conhecimento
Esta criação de Pierre Lévy e Michel Authier é um perfeito exemplo de inteligência coletiva e cibercultura. Este software favorece o desenvolvimento pessoal contínuo e flexível dos indivíduos e valoriza as suas competências, qualificações e habilidades. Torna-os visíveis à comunidade onde estão inseridos, de forma que a comunidade, como um todo, possa beneficiar do contributo de cada um.
PIERRE LÉVY, o visionário
Ao ler a obra Cibercultura de Pierre Lévy, primeiramente publicada em 1997, compreendemos como o autor tinha consciência do impacto profundo que a Internet iria ter na humanidade. A sua reflexão sobre o futuro dos sistemas educativos e de formação foca alguns aspetos que estão perfeitamente atualizadas no séc XXI.
Lévy (2000, p.167) prevê que “Pela primeira vez na história da humanidade, a maior parte das competências adquiridas por uma pessoa no início do seu percurso profissional serão obsoletas no fim da sua carreira.”
Esta sua previsão está alinhada com as políticas educativas europeias e nacionais atuais, conforme descrito no Decreto-Lei n.º 55/2018, de 6 de julho “a sociedade enfrenta atualmente novos desafios, decorrentes de uma globalização e desenvolvimento tecnológico em aceleração, tendo a escola de preparar os alunos, que serão jovens e adultos em 2030, para empregos ainda não criados, para tecnologias ainda não inventadas, para a resolução de problemas que ainda se desconhecem”.
Relativamente ao ensino superior, Pierre Lévy afirma a necessidade de recorrer a novas formas de ensino-aprendizagem para dar reposta à crescente procura não apenas em termos quantitativos, mas em termos qualitativos de diversificação e personalização da oferta.
Valoriza as novas metodologias de aprendizagem cooperativa e promotora de inteligência coletiva. Este novo paradigma apresenta o docente como facilitador e gestor da inteligência coletiva dos grupos.
Esta visão é perfeitamente atual em 2025 e está subjacente ao Modelo Pedagógico Virtual da Universidade Aberta
Lévy, Pierre (2000). Cibercultura Instituto Piaget


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